Instituição já conta com ferramentas de dados climáticos, como o MudClima e o PrevIA, para transformar previsão em decisão de investimento
O El Niño que se forma para o final de 2026 já é tratado pelos especialistas como um dos episódios mais intensos das últimas décadas. Modelos climáticos indicam anomalia trimestral superior a 2.53°C no último trimestre do ano, aproximando esse evento da magnitude registrada em 1997-98, 2015-16 e 2023-24. Para o setor elétrico brasileiro, o alerta vai além da meteorologia: estudos do Cepel apontam aumento de aproximadamente 30% nos eventos climáticos extremos nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, o que representa um novo patamar de risco operacional para as concessionárias.
Os impactos se espalham por toda a cadeia do Sistema Interligado Nacional. Usinas hidrelétricas e reservatórios enfrentam alterações nas vazões e no armazenamento, com risco de redução no Norte e Nordeste e de cheias no Sul. Linhas de transmissão perdem capacidade durante ondas de calor e ficam mais expostas a incêndios florestais, ventos intensos e descargas atmosféricas. Subestações em áreas sujeitas a alagamentos, especialmente no Sul do país, também entram na lista de pontos vulneráveis.
“Em um cenário de El Niño mais intenso, a qualidade e a antecedência das previsões hidrológicas são fundamentais para que o setor elétrico possa se preparar. A informação climática precisa chegar à tomada de decisão de forma integrada, ajudando a antecipar possíveis impactos sobre as vazões, os reservatórios e a operação do sistema”, afirma Anna Carolina Bazzanela, meteorologista e pesquisadora do Cepel.
Da previsão à priorização de investimento
Diante desse cenário, o desafio para o setor não é apenas entender o risco, mas agir sobre ele antes que se concretize. É nesse ponto que entra o MudClima, metodologia e sistema web georreferenciado desenvolvido pelo Cepel. A ferramenta combina projeções climáticas baseadas em diferentes cenários do IPCC com características dos ativos elétricos e informações socioambientais do entorno dos empreendimentos, permitindo identificar áreas mais expostas e vulneráveis e avaliar possíveis impactos sobre a infraestrutura.
“O MudClima nasceu da necessidade de transformar dados climáticos complexos em informação prática para quem toma decisão. Com ele, as empresas conseguem enxergar, com antecedência, onde investir para reduzir perdas futuras, em vez de reagir depois que o evento extremo já causou dano”, afirma Igor Raupp, pesquisador do Cepel.
Inteligência artificial a serviço da previsão hidrológica
O Cepel também aplica inteligência artificial diretamente na previsão hidrológica, um dos pontos mais sensíveis da operação em anos de El Niño. O PrevIA, sistema de previsão de vazões baseado em aprendizado de máquina, combina variáveis hidrológicas, meteorológicas e climáticas para gerar estimativas mais precisas, especialmente em previsões de horizonte mais longo, quando fenômenos como o El Niño ganham peso nos modelos.
“A recomendação principal é se antecipar aos riscos, e não esperar que os eventos extremos aconteçam para agir. Os próximos meses devem ser usados para revisar cenários, avaliar a exposição dos ativos e fortalecer os planos de adaptação”, completa Daniela Kyrillos, pesquisadora do Cepel.
O Cepel reforça que a resiliência da infraestrutura elétrica depende de três frentes de investimento complementares: o reforço e a proteção da infraestrutura física crítica, o aumento da flexibilidade e da capacidade de resposta do sistema, e a produção contínua de informação, monitoramento e gestão de riscos climáticos.
“A tecnologia já existe e está pronta para uso. O que precisamos agora é que as empresas incorporem esse tipo de informação na rotina de planejamento, e não apenas em momentos de crise”, afirma Katia Garcia, líder técnica de Transição Energética, Descarbonização e Sustentabilidade do Cepel.
Com ferramentas como o MudClima e o PrevIA, a instituição busca colocar o conhecimento técnico a serviço de decisões mais rápidas e melhor embasadas, em um momento em que antecipação deixou de ser diferencial e passou a ser condição para manter a segurança do fornecimento de energia no país.